quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Um final, não necessariamente feliz


Nesse aspecto, entro introspecta
E penetro o impenetrável.
Por um lapso, um passo
E no laço caio.

No emaranhado, presa estou
E, se me calo, apática
Disparado o coração se agita.

Luto, ergo a lança
Escudo empunhado
E máscara posta.

Se a espada é afiada
Postura de guerreira brava se projeta.
Não menos imposta está a paixão invasora
Que, apesar da luta, no âmago se manifesta.

Que a ilusão não engane que fácil será.
Enquanto força tiver, resistirá o coração
E bravamente a rejeitará
Mandando de volta para onde deveria estar.

Chegou inconveniente em terra árida
Que as quedas fizeram questão de secar.
Duelo haverá e entre feridos e mortos
Há de ser expulso esse mal para outro lugar.


Um história de potes, cacos, arco-íris, barro....


Fez questão de guardar os cacos em um pote, que preferiu deixar para trás. Sabia que não chegaria longe se carregasse o peso de pedaços de passado.
Pelo caminho, também deixou bagagens cheias de vazios torturantes, que não tinham serventia alguma e que ainda eram impregnados de condenações.
Preferiu a absolvição da liberdade, de olhar só para frente.
Despiu-se da roupa encharcada de choro; andou nua por uns tempos e depois costurou uma veste nova com os retalhos que a estrada desvendava.
Custou um tanto a descobrir que é na história que está por construir que estão seu sentido e direção, e não nas páginas que já foram escritas com canetas de penas de si própria ou de outrem.
Merecia uma história nova e a cada vez que encontrava resquícios do que o tempo fez questão de deixar para trás, imediatamente; guardava em novos potes, largados pelo caminho, sem pistas de seu paradeiro.
Se no final do arco íris existem potes cheios, não é para lá que planeja ir. Em sua comitiva só cabem os potes vazios, que têm mais utilidade...
E, se nos potes, existiam tesouros, quem os encontrar saberá usufruir.
Caso precise de mais potes vazios lá pela frente, a experiência ensinou a esculpi-los com barro e saliva.


Ousadia do medo




Meu medo é proporcional à minha ousadia.

Sou como bambu que chega a tocar o chão durante uma ventania, mas quando volta, vem com uma força tamanha que abre clareiras...
Enquanto tiver pulso, vou lutando.
Se é para me machucar, que fique uma cicatriz bonita e que conte uma história.
Se é para sangrar, que lave a minha alma.
Se é para doer, que meu grito ecoe e chame a atenção para mim.
Lamento, mas aviso aos navegantes: eu não desisto.
E, se perder as forças, não foi uma desistência, mas um esgotamento de possibilidades.
Não digo que vou morrer lutando.
Mas, que vou viver até o último segundo em uma constante busca pela felicidade.

Epitáfio (Anjos de Realengo)



Mentiram quando disseram que éramos o futuro do país...
Que a educação é o melhor caminho e que a escola é lugar seguro.
Aqui, jazem projetos interrompidos, sonhos desfeitos e vidas que não desabrocharam.
Voltamos ao pó, sem entender a que viemos.
Os estampidos que ouvimos, não eram fogos celebrando nossa juventude,
Mas eram tiros que calaram nossa  voz para sempre.
As lágrimas dos nossos pais não serão suficientes para fazerem germinar a semente do nosso futuro.
Dia 7 de abril de 2011, o Dia que o Absurdo venceu a Vida.
Quem for capaz, que esqueça!
Quem for humano, que reaja!
                                           

Amo o impossível...


Às vezes ele me dá bola...outras, me ignora... quanto mais me provoca, mas eu o desejo... vou atrás dele com todas as minhas armas e encantos... às vezes ele cede e vivemos momentos de contos de fadas.. eu, princesa? Não, sou a bruxa e ele a maçã.... outrora, o inverso... Ah, o impossível, se eu te pego de jeito...
Às vezes, sou eu que o ignoro... aí, ele vem sorrateiro, provocante, me catuca até eu ceder... faço charme, me finjo de morta... mas tem uma hora que não resisto...Afinal, não sou de ferro... Nas minhas veias não correm sangue, mas adrenalina... Essa é uma história longe de ter um final feliz, por um só motivo, não terá fim...
Impossível, seu nome é vida, aqui ou acolá...
Meu nome é determinação.
Muito prazer...e que prazer!

Alguém que veja...




Era mais uma daquelas manhãs chuvosas no verão da grande metrópole, em que o trânsito pára, o relógio dispara, os compromissos não esperam e os atrasos não perdoam. Um dilúvio que carrega a paciência, o bom humor, a sensibilidade e até os sentidos. Da janela, tenho uma dura constatação. Vivemos uma epidemia: a da cegueira. Teria sido a enxurrada que levou consigo nossa visão?
Mas, em meio à tamanha escuridão, eis que surge uma luz. Sim, alguém enxerga. Encharcado, inerte, trêmulo e completamente só, um deficiente visual enxerga a cegueira de quem passa. Acompanhado apenas de sua bengala, vestido com uma camisa vermelha ensopada, ele observa o vai e vem de pessoas que enxergam, mas não vêem.
O toureiro balança a bandeira vermelha e o touro vê e ataca. Mas, nós pedestres não enxergamos aquele ser só, indefeso, esperançoso de encontrar alguém que o auxilie a atravessar a rua. Embora esteja de camisa vermelha, nós, feras urbanas, não percebemos.
Cadê os cientistas com um antídoto para curar nossa cegueira? Sigo em frente com minha falta de visão, de sensibilidade e de compaixão.
Mas, ele fica para trás...ensopado, impotente, porém superior...Muito além...

                 VALÉRIA AGUIAR

A mulher invisível


Caminho no meio da massa e sou invisível. Olho como lobo faminto, como cão farejador, como águia atenta em busca de alguém que veja.
Por um instante, a sensação do alvo atingido...
Alarme falso.
Da adrenalina, do êxtase de ter sido, enfim, resgatada do breu da selva da multidão à frustração dilacerante de se estar realmente sozinha...
Sou mulher invisível...
A multidão vai e vem, no meu sentido e contra mim...
Talvez me pinte para ser vista... ou grite para ecoar...
Mas, como me pintar por dentro?  Como fazer ressoar a voz da alma?
Não quero a companhia de quem só vê a capa... Chega de máscaras... Já basta a minha...
Fim da saga. Chego ao batente. Sou mais uma engrenagem na máquina que move o mundo... mas, no meu mundo, sou o motor.
Amanhã, quem sabe, na devoradora ânsia de ser vista por dentro, eu me descubra... seja por mim mesma ou por alguém.
Afinal de contas, eu tenho certeza de que me basto. Só falta mesmo eu me convencer disso...