quarta-feira, 14 de março de 2012

Sou folha de papel (crônica de um engarrafamento)

Da janela do carro vejo um pedaço de papel que flutua por entre o fluxo congestionado e congestionante da hora do rush. A brisa bate e a folha sucumbe, alterando a direção.
 A motocicleta que costura o trânsito fazendo vento e ruído modifica mais uma vez o rumo.
Na outra mão, livres e fluindo velozes, automóveis possantes, alheios aos limites que imperam do outro lado, passam como rojões.
A folha voa alto agora, como se ejetada para a liberdade das alturas. Ao pairar, lembra uma garça a observar os reféns enclausurados das quatro paredes de aço.
Observo que, lentamente, vai repousando. Momento de calmaria. Que sensação libertadora a de poder voar.
Mas, cuidado, está caindo, e os monstros de aço podem esmaga-la.  Adeus vôo, adeus liberdade momentânea.
Que limite enfim entre o êxtase e o fim.
Lá se foi uma imagem... era minha miragem no deserto do engarrafamento em que me encontro.
Sinto-me um pouco folha de papel.
Vou e volto conforme as intempéries do tempo, dos outros, da máquina...
Mas, espera! Se sou papel, não quero ser como a folha sem rumo, esmagada pelo tráfego da vida.
Antes, pegarei uma caneta e escreverei um enredo envolvente. Com direito à trilha sonora que hora acalenta e hora impulsiona.
Sou papel e sou protagonista. Sou autora e sou personagem.
Você quer me ler?

Companhia dos anjos

Gosto da companhia dos anjos. São companheiros fieis. Nao economizo no meu direito de chamar por eles. Na alegria, comemoraram comigo. Na aflição, se ajoelham por mim. Acho que as criaturas que mais se assemelham aos anjos são os cães. Aquela expressão usada nos casamentos "na saúde e na doença, na alegria e na tristeza" se aplica bem a duas classes de criaturas: das mães para os filhos e dos cães para seus donos.

terça-feira, 13 de março de 2012

Sucumbir-se

Até a última gota, até o último segredo, até o último suspiro.

Arriscar-se, sucumbir-se, mergulhar em profundezas...

Viajar até o outro lado do planeta, avançar fronteiras, derrubar muros.

Olhar o mundo vermelho, brincar de fantasiar...

Deixar-se embalar pela mais pura poesia.

Experimentar sabores novos, de saquê a marrom glacê.

Com temor. Mas, com fervor.

Sem pudor. Mas com doçura.

Um daqueles roteiros de filme que nunca poderia se imaginar.

Sem “The End”. Simplesmente porque nem início se teve.

Não começou e nem vai terminar. Somente vai se sentir.

Ah, vida! Seu nome também é Surpresa.

sábado, 10 de março de 2012

Mosaicos

Aprecio, em muito, os mosaicos:

Cacos soltos que um dia foram um todo.

Agrupados, colados, formam nova identidade.

Já não são mais cacos, mas obra de arte artesanal.

Que lindos são os mosaicos. É possível apreciar cada caquinho.

... Nenhum sequer perde a forma única, mas se presta e se empresta a construir coisa nova.

Uns são angulares, outros, apenas, peças.

Sem quebrar-cabeças, sem ordem definida.

Simplesmente, peças, e múltiplas, e mágicas.

Porém, mais lindo que os cacos e que o próprio mosaico em si são as mãos de quem se propõem formá-los.

Vida de Mosaico... Que arte.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Um brinde de outro mundo


Hoje senti vontade de beber, mas não uma bebida qualquer.

Queria beber um rio...ou um oceano, sei lá.

Uma bebida com gosto de infinito, de liberdade...

Um pouco apimentada, como as tempestades em alto mar...

Mas que se misturasse com paladar doce, como as marés em noites enluaradas...

Se pudesse reunir em uma taça todas as bebidas do mundo, com todos os seus sabores, todos os seus exóticos ingredientes, todos os seus aromas e todas as suas nuances...

Uma bebida que embriagasse somente alma...

Que não me fizesse entortar as pernas, mas os sentimentos...

A taça está preparada.... À espera do grande brinde... Eu, o oceano e o luar...

Uma pena, por favor! (Eu tenho fome de quê?)

Hoje, o que eu mais queria era ter uma pena. Um sentimento que me causasse dor, que me deixasse estática, resignada e de mãos lavadas? Ou uma ferramenta que me permitisse redigir palavras de indignação, capazes de se transformarem em motor propulsor de transformação?



Onde encontrar essa pena que, ao contato com o nanquim da mais íntima essência da minha humanidade, produziria uma alquimia com poderes para tirar da inércia do sofá do conformismo a todos nós telespectadores que assistimos mudos ao espetáculo da morte? Não uma morte qualquer, daquelas ditas naturais, quando o sujeito nasce, cresce e descansa em paz, amém. Mas uma morte daquelas em que o suijeito é oculto pela fome de poder e ganância do mundo.



Qual será a maior fome? A que mata ou a que faz morrer? A fome que alimenta os cofres dos bancos mundiais e as cotações das ações nas bolsas de valores (que valores? os humanos?) Ou a fome que dizima crianças raquíticas que só conheceram como brinquedos ossos dos animais que seus pais tentaram criar, na esperança falida de um dia transformar em banquete? Hoje são só ossos secos nas mãos de pequenos que nunca tiveram um boneco, mas que cumprem o papel de soldadinhos. São ossos do ofício? Do ofício da condenação? Pelo menos alguém, os animais, cumpriram um papel que não fosse o de carrasco.


Conseguiria minha pena escrever o epitáfio dos homens e mulheres que nunca foram apresentados ao resto do mundo dito “civilizado” e que os condenou, primeiro, à escravidão das senzalas, dos troncos e do chicote, e, agora, à da miséria dilacerante da fome?


Oh, que miséria a minha! Sinto uma fome de indignação suficiente para com minha pena escrever uma história nova, em que os personagens não sequem mais de desnutrição, doenças curáveis e fome. Em que os leitores não sequem mais de desprezo e alienação e conformismo.


Será que se eu misturar as lágrimas que derramei ao ver o êxtase e euforia provocados pela bola levada por uma seleção de jogadores do mundo “civilizado’ ao pó do chão árido em que sobrevivem, produziria o nanquim que preciso? Algo me diz que não era o futebol simplesmente o responsável pelo sorriso largo cheio de dentes que raramente mastigam comida, mas a “bola” que aparentemente e mentirosamente o mundo parecia estar dando para aquele ponto renunciado do planeta. Se o mundo é uma bola, em que ponto dessa circunferência está localizada a dignidade dessa gente negra? No ponto morto?

É tão cômodo preferir não olhar para não estragar o dia! É tão mais simples alegar não ter estômago para ver gente morrendo faminta com o estômago devorando o fígado! É tão mais lucrativo não dar manchete porque não vende jornal!

Quem me dera, minha pena pudesse salvar o mundo da covardia e resignação. Enquanto isso, por favor, me empreste uma pena, para que eu possa escrever, na esperança de que minhas palavras se transformem, um dia, em pedaços de pão.
Por Valéria Aguiar

quinta-feira, 8 de março de 2012

Poesia é ousadia para poucos

Quando quero gritar, leio poesias...

Os versos, ai os versos, falam tão alto, que minhas entranhas escutam, minhas fronteiras se abrem e meus ocultos se revelam...

Se quer me arrepiar, recite...

Misto de instinto, de reflexo, de espectro de sublimidade.

Se a intenção é fazer rir à toa, declame...

Arriscar-se na mais ousada aventura, onde só se chega montado em versos, é ousadia para poucos.

Com licença, necessito de carona agora.

Pessoa, Drumond, Coralina, tem lugar para mim na comitiva?